Para Aziz Nacib Ab´Sáber, ilustre filho de Paraitinga, a ignorância arrasta a
história para o fundo dos rios
O pai de Aziz era homem de poucas letras brasileiras. Mas esse libanês
maronita entendia o idioma do bom negócio. Quando a economia de São Luiz do
Paraitinga começou a ruir por causa da Central do Brasil, ferrovia que tirou a
cidade do eixo da exportação de café, seu Nacibinho levantou a barra da sua
lojinha e foi-se embora com a família para Caçapava. Aziz tinha apenas 5 anos.
Oito décadas depois, sua memória de São Luiz é viva o suficiente para que
lamente todo o patrimônio histórico levado pela inundação e para que aponte
nesta entrevista, colhida em interurbanos intermitentes para Ubatuba, os motivos
"fisiológicos" que teriam levado a cidade do Vale do Paraíba a sucumbir sob as
águas. Um deles é a periodicidade de uma crise climática anômala. Dependendo da
região, de 12 em 12 anos, de 13 em 13 ou de 26 em 26, o mundo desaba. E os
homens e as moradias sofrem com as chuvas, ainda mais se decidem ocupar o que
não pode ser ocupado.
As escorregadelas políticas também cá estão. Aziz não é de poupar burrices
administrativas, especialmente na área ambiental. Critica todas as camadas do
governo - do federal, com quem se desentendeu logo no início do mandato do
presidente Lula, ao municipal, com seus "prefeitos incautos". Só o enchem de
esperança os jovens, mas aqueles que frequentam as boas universidades
brasileiras, para quem este eterno mestre da geografia escreve o terceiro volume
de suas
Leituras Indispensáveis.
São Luiz do Paraitinga perdeu ¼ dos imóveis tombados. Foi um dos
maiores desastres culturais do País. Como o senhor reagiu a isso?
É compreensível que, tendo nascido lá, eu sinta uma tristeza imensa com essa
destruição. Houve, no passado, uma tragédia semelhante. Quando eu era menino,
com 4, 5 anos, meus parentes comentavam: "A cidade foi inundada até a beira do
mercadão". A casa dos meus pais ficava numa esquina em frente do mercado e o
fundo dela era o rio, que volteava tudo. Mas, na época, São Luiz tinha um
crescimento populacional mais razoável. Lembro que a margem de ataque do rio, à
beira d'água, era uma estradinha tangenciando o morro para poder chegar ao
caminho de Ubatuba. Andei muito do outro lado do rio, onde ia coletar pitangas
gostosas na borda da mata. Hoje, além das pousadas, há os eucaliptais, que são
uma presença extremamente perigosa no entorno de São Luiz. Os eucaliptólogos
descobriram os morros da cidade, plantaram num nível de até 15, 20 quilômetros
de São Luiz para oeste. Isso mudou todo o esquema.
Como assim?
Os eucaliptos oferecem vantagens econômicas para os donos de empresas, mas,
com eles, há o sugamento da água subterrânea. Na estrada de Tamoios, próximo da
represa do Paraibuna, a formação de bosques de eucaliptos é ainda maior. Os
eucaliptólogos se reúnem sempre lá para fazer seus projetos. Ocorre que os
prefeitos são incautos. Dando um pouco mais de impostos e de dinheiro para a
prefeitura, eles deixam acontecer.
Que características tem a cidade para já ter sofrido inundação no
passado?
Toda aquela região da Praça da Matriz, que é a região da Rua das Tropas e a
região do mercado, tudo aquilo é envolvido por um meandro. Meandro é uma volta
do rio às vezes muito alongada, às vezes mais estreita. Todo meandro tem um
lóbulo interno, a várzea. Do outro lado, sobretudo em áreas de morros, ficam os
declives. Bom, tudo isso se modificou muito. Antigamente, o povo chamava o
período de maior cheia do rio, embora não catastrófica, de tromba d'água. As
duas expressões mais bonitas de São Luiz eram rio acima e rio abaixo. Vinham de
rio acima grandes aguadas, mas elas raramente subiam até o lóbulo e, portanto,
até a praça. Desta vez, as grandes chuvas desceram os patamares de morros e
chegaram aos terraços. Houve deslizamentos de blocos de terra, árvores, pedaços
de rocha. Foi uma tragédia total.
Técnicos atribuem a desgraça também ao excesso de chuvas. Está mesmo
caindo mais água do céu?
Este é um período anômalo, de grandes interferências na climatologia da
América do Sul, provocadas por um aquecimento relacionado ao El Niño. Primeiro
foi no nordeste de Santa Catarina, depois no Rio e no Espírito Santo, depois em
São Paulo, depois em Minas, depois no sul de Mato Grosso. A coisa foi se
ampliando por espaços do tropical atlântico e por outras áreas do planalto
brasileiro. Na época da enchente catarinense, fiz uma listagem da periodicidade
climática de exemplos bastante prejudiciais para cidades e campos. Esse trabalho
está publicado na revista do Instituto de Estudos Avançados de dezembro e mostra
que, de 12 em 12, ou de 13 em 13, ou de 26 em 26 anos, desde 1924 até dezembro
de 2008 e dependendo do lugar, houve essa periodicidade. Cheguei à conclusão de
que é preciso muito cuidado nos próximos 12 anos em Blumenau e fazer obras de
retenção na área de extravasamento do rio no sítio urbano. Caso contrário,
quando esse ciclo atormentado da climatologia se repetir, será reanunciada a
desgraça.
Mas o senhor previu que Paraitinga também poderia
sucumbir?
Quando passei a visitar de novo o município para conhecer melhor minha
terrinha, não senti a possibilidade de invasão de águas no lóbulo interno
pegando a Praça da Matriz. Não senti. Não achei que isso ia acontecer. Tanto que
insisti muito em trazer a biblioteca de ciências, que estava na ex-casa de
Osvaldo Cruz, para um lugar mais baixo e frequentado por crianças. A Praça da
Matriz seria o lugar ideal. Transpuseram os livros, montaram uma bibliotecazinha
ali. Os empresários, aliás, em vez de se preocupar com a cidade, resolveram
fazer uma dádiva apenas para mostrar colaboração. Criaram a biblioteca infantil
e mandaram comprar livros que não tinham nada de relação com a educação
infantil. Eu fiquei furioso com isso. Continuei levando muitos livros para lá,
auxiliado por uma pessoa que fez história na USP. Foi a minha tarefa. Mas a
gente não sabia que ia chegar o dia dos 13 em 13 e dos 26 em 26. Passei a me
preocupar com isso depois que estudei o quadro na região de Blumenau. Já estava
escrito.
Também já estavam escritas as mortes em Angra?
Lá foi invasão em áreas de risco, pousadas sucessivas nas encostas. Morro é
sempre complicado. Como os prefeitos deixam isso acontecer sabendo que embaixo
dos morros tropicais tem solo vermelho fofo, de forma que casas bem construídas
ou mal construídas podem, durante esses ciclos de climatologia anômala, descer
pelas encostas, matar as pessoas, derruir as cidades? O principal derruimento,
minha filha, é a ignorância das pessoas. Ao saber que o governo do Estado do Rio
havia liberado áreas de risco e de proteção ambiental para a expansão das
cidades, fiquei desesperado. É preciso ter menos ignorância, mais planejadores,
mais equipes interdisciplinares capazes de observar o sítio urbano, a região do
rio acima, a região do morro, a do lóbulo interno dos meandros. A moça que
trabalha aqui comigo em Ubatuba me dizia que, por morar em bairro afastado, não
tem escola para os filhos. Começa por não ter escola, começa por não conhecer a
história da cidade, tampouco o clima da região.
Que história se perdeu sob as águas do Rio Paraitinga?
A história de uma cidade que enriqueceu durante o ciclo do café e decaiu com
a estrada de ferro. Durante o ciclo, a única maneira de exportar o café era
saindo de Taubaté e passando pela região onde hoje está São Luiz. Ali se formou
uma rua alongada, com as casas à direita e à esquerda, a Rua das Tropas. Pois
bem, algumas pessoas dos arredores de São Luiz também tiveram ali fazendas de
café. Houve uma época, inclusive, em que empreendedores de origem francesa
tentaram fazer uma indústria de tecidos no caminho que vai de São Luiz a
Ubatuba, por isso muitos nomes da cidade têm origem híbrida, portuguesa e
francesa. Mas foi um investimento fracassado.
E como surgiram os casarões?
Os fazendeiros de café ficaram tão encantados com a exportação do produto
pela estrada que tiveram, a partir de 1850, a ideia de construir casarões para
morar na cidade. E toda roça é muito triste à noite, sobretudo aquelas com
riachos cortando os morros. Enquanto na roça permaneceram os capatazes, na
cidade os fazendeiros receberam imigrantes de várias partes, especialmente de
Portugal, que tinham tradição e capacidade de construir casarões de pau a pique
e taipa. Não é uma coisa que resista a todos os tempos, sobretudo quando há
enchentes dramáticas. Bom, filha, essas pessoas receberam uma tragédia
socioeconômica em torno de 1900, quando se estabeleceu a Estrada de Ferro
Central do Brasil. Todo o café, do vale inteiro, passou a sair pela estrada por
Taubaté, São José dos Campos e Lorena em direção ao Brás e, de lá, pela Estrada
Santos-Jundiaí. Mudou-se o eixo da exportação. O problema era sério e grave.
Algumas famílias de fazendeiros foram fenecendo. Pessoas de Minas Gerais, que
sabiam guardar seu dinheirinho, vieram para São Luiz e compraram terras para
fazer o que sabiam fazer: criar gado leiteiro. Disso viveram por muitos anos.
Quanto aos casarões, muitos foram transformados em hotéis.
O senhor acredita que Paraitinga voltará a ser polo
turístico?
A USP, universidade em que nasci como pessoa cultural, vai fazer um grupo de
trabalho para compreender a cidade em todos os níveis. Disseram que queriam
colocar o meu nome em primeiro lugar na equipe. Pedi que não me constrangessem.
Eu já estou muito constrangido com mil coisas, estou desesperado com os péssimos
políticos que o Brasil tem.
O senhor disse certa vez que o governo não tinha noção de escala.
Continua achando o mesmo?
Em projetos médios e maiores, continua sem noção. E quem não tem essa noção
dirige mal o seu país. No caso do presidente da República, sempre insisti com
ele: "Você, que sabe fazer discurso, fale nas suas prédicas que vai pensar no
nacional, no regional e no setorial". O nacional é a Constituição, são as
reformas especiais que precisam acontecer de tempos em tempos. Regional é o
conhecimento do Brasil como um todo: as terras baixas da Amazônia, os afluentes
do Amazonas, o Golfão Marajoara, as colinas recobertas por caatingas entre as
chapadas do Nordeste, entrando um pouquinho pelo Piauí e muito pelo Rio Grande
do Norte, com raros solos vermelhos, bons quando a topografia é suave. Esses
locais foram muito úteis para o Ceará, mais úteis que alguns políticos que
existem lá. O setorial pressupõe pensar em educação, saúde pública, transportes,
comunicação livre, setor socioeconômico e setor sociocultural.
Há quem atribua essas tormentas climáticas dos últimos meses ao
aquecimento global. Há alguma verdade nisso?
Isso é bobagem. O ciclo deste ano é um ciclo periódico complicado. Essas
pessoas que falam em aquecimento global erraram tanto até hoje... Diziam, por
exemplo, que o aquecimento iria derruir a mata amazônica. Outro publicou num
jornal de São Paulo que, por causa do aquecimento global, a mata atlântica de
Santa Catarina até o Rio Grande do Sul seria destruída. Ele não sabia que essa
mata só está na costa. Agora, é verdade que, somando os aquecimentos das áreas
industriais e das áreas urbanas, dá um aquecimento contínuo. Daí em Copenhague
terem defendido o combate a ele.
O senhor achava que a COP-15 teria outro desfecho?
Eu sabia que seria um insucesso. Quero um bem imenso à Dinamarca, tenho
razões culturais para isso, mas note bem: quando vi que o Lula ia indicar um
grande número de pessoas, foram mais de 740, eu disse: como é que em Copenhague,
cidade relativamente pequena, tradicional, como é que vai haver uma reunião em
que mais de 740 pessoas possam fazer debates? Ia dar numa coisa zero.
Foi um insucesso por causa da grande comitiva
brasileira?
Foi por causa de tudo, mas o Brasil viajou para lá exuberante. Levaram a
Dilma. A Dilma nunca entendeu de meio ambiente. Não tem culpa. Ela tem outro
passado, daí ter sido colocada inicialmente no Ministério de Minas e
Energia.
E o que o senhor acha de Marina Silva como candidata, ela que sempre
esteve ligada à preservação ambiental?
Ela não conhece o Brasil. É uma mulher do Acre, uma pessoa que acredita no
criacionismo. Ela é ela, e acabou. Tudo o que sabe é que existiram aquelas
fantásticas atitudes de Chico Mendes.
Quem entende de meio ambiente no governo, professor?
No governo, apenas os técnicos mais jovens do Ibama, com o auxílio de
promotores públicos também jovens, saídos das boas universidades brasileiras.
São eles que me dão entusiasmo, são eles que me dão esperança. Mas o Ibama está
gradeado pelo governo federal, o que é um absurdo. Isso vai redundar, no futuro,
em muita coisa contra a biografia de todos eles, sejam governantes federais,
estaduais ou municipais. Digo e repito: nós no Brasil precisamos aprender a
contestar os idiotas.
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Sérgio Neves/AEChuva desceu os morros e chegou aos terraços de São Luiz do Paraitinga trazendo blocos de terra |