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Monumento às Bandeiras, de Victor Brecheret |
-Primeira Parte-
Na sobrevivência, um jeito
próprio de ser
Quase sempre quando se fala
em visitar cidades históricas, vem à mente localidades como Ouro Preto, Parati,
Salvador e Olinda. No entanto, as cidades paulistas fundadas na época do
bandeirantismo e tropeirismo, também guardam belos resquícios históricos de uma
saga que influenciou profundamente a formação do Brasil.
Nessas
paragens, começando pela arquitetura doméstica, passando pelas roupas, chegando
aos alimentos, vamos encontrar algumas das marcas deste passado aventureiro. Que
se manifestam também nos sotaques de sua gente, nas roupas que vestem, nos
odores dos fogões a lenha, nas músicas e cantorias, nos contos e um sem fim de
festas populares.
Os traços
desta herança podem ser encontrados em fotos remanescentes nas paredes, na
visita a uma antiga sede de fazenda ou mesmo morando nela. Ela também se
abriga numa antiga cantiga de ninar, que entoada, faz ecoar uma longínqua
lembrança africana.
O passado
está ao alcance das mãos, quando tocamos as rendas de uma toalha sobre a mesa ou
repousamos numa rede. Assim como no colo da moça,
que enfeita um pequeno camafeu e mesmo quando saboreamos um doce de tacho, resgatado de
um velho caderno de receitas da família, de que herdam sucessivas
gerações.
São momentos
que formam uma imperceptível cadeia de aconchegos e memórias, de onde surge a
deliciosa sensação de estar em casa. São legados de um tempo remoto,
sedimentando na memória e que moldam a natureza do ser
paulista.
Tudo começou num
passado distante, provavelmente ao abrigo de uma tapera, à beira de algum rio
que cortava o planalto de Piratininga. Alí forjava-se uma expressão
verbal tipicamente paulista, a primeira e mais forte delas: “buscar
remédio”.
Em voga desde o fim do
século XVI até o início do XVII, ela tinha a conotação especial de buscar a
vida fora de casa. Mais do que sair atrás de
riqueza, pedras preciosas e índios, representava sobrevivência pura e simples.
Naquele fim de mundo, ela significava, sobretudo, a procura de alternativas à
pobreza, da dura vida que se tinha no planalto de Piratininga, onde os
religiosos fundaram a vila de São Paulo.
Essa motivação que obrigava os homens se ausentarem do povoado,
embrenhando-se no sertão, foi um fenômeno eminentemente prático que abrangeu
três distintos capítulos da história
paulista: o bandeirantismo, o movimento monçoeiro e o tropeirismo.
Tudo movido
por um dinamismo pragmático, mas que naquele primeiro momento significava apenas
a sobrevivência.
Fonte: Essa série é uma
compilação da Coleção Terra Paulista - Histórias,
Arte e Costumes (1º Vol.), que aborda a formação do Estado de São
Paulo e seus habitantes. Outros dois volumes completam esse trabalho
originalmente produzido pelo CENPEC – Centro de Estudos e
Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária. ISBN 85.7060.295-2 (Imprensa
Oficial do Estado)
Postado por: Enéas M.F.